
MANAUS – O escândalo do Banco Master já levou à prisão do banqueiro Daniel Vorcaro, ao afastamento de dois diretores do Banco Central (BC) e à revelação de um rombo bilionário que abalou o sistema financeiro nacional. Enquanto a Polícia Federal e a Controladoria-Geral da União aprofundam as investigações, uma pergunta ecoa nos corredores do Congresso e nas rodas políticas: qual foi o papel de Roberto Campos Neto, o presidente do BC indicado por Jair Bolsonaro que comandou a autarquia de 2019 a 2024? E, mais do que isso: quando ele vai sentar no banco dos réus?
A nomeação: o início da trajetória
Roberto Campos Neto foi indicado para a presidência do Banco Central pelo então presidente Jair Messias Bolsonaro. Sua nomeação foi aprovada pelo Senado em janeiro de 2019, e ele tomou posse no dia 28 de fevereiro de 2019. Durante seu mandato, foi aprovada a Lei Complementar 179/2021, que concedeu autonomia formal à instituição. Campos Neto permaneceu no cargo até dezembro de 2024, quando foi substituído por Gabriel Galípolo, indicado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
A indicação por Bolsonaro é apontada por críticos como a “raiz do problema”, nas palavras do ministro da Casa Civil, Rui Costa: “Quem é o grande responsável? Quem tinha a obrigação de enxergar o que estava acontecendo embaixo da gestão dele? A diretoria do Banco Central, o presidente do Banco Central, Campos Neto. Indicado por quem? Bolsonaro. Essa é a raiz do problema”.

Os diretores de Campos Neto que agora são investigados
Dois nomes da alta cúpula do BC durante a gestão de Campos Neto estão no centro das investigações:
· Paulo Sérgio Neves de Souza – ex-diretor de Fiscalização (2019–2023). Foi ele quem assinou a autorização para que Daniel Vorcaro comprasse o Banco Máxima, posteriormente rebatizado como Banco Master. A Polícia Federal aponta que Paulo Sérgio atuava como “consultor informal” de Vorcaro, recebendo pagamentos e orientando como contornar a fiscalização. Mensagens no celular do banqueiro mostram pedidos para “destravar” negócios “atravancados” pela autarquia.
· Belline Santana – ex-chefe do Departamento de Supervisão Bancária (Desup). Segundo a PF, ele também recebia vantagens indevidas para atuar “de modo informal e reiterado em favor dos interesses” do Master.
Ambos foram afastados em janeiro de 2026 pelo atual presidente do BC, Gabriel Galípolo, e hoje usam tornozeleira eletrônica. Respondem a processos administrativos e criminais por corrupção ativa e passiva, lavagem de dinheiro e organização criminosa.
O alerta que o BC ignorou
Um dos pontos mais graves contra a gestão de Campos Neto ocorreu em julho de 2024. A Polícia Federal enviou um ofício ao Banco Central detalhando suspeitas de que o empresário Nelson Tanure seria o “dono oculto” do Banco Master, utilizando paraísos fiscais nas Bahamas para ocultar a propriedade. O documento, baseado em investigações que já apontavam fraudes bilionárias, foi encaminhado à área de fiscalização do BC.
A resposta da autarquia foi rápida: as denúncias já haviam sido analisadas e arquivadas. O BC afirmou que “estava tudo ok” com o Master, baseando-se em documentos fornecidos pelos próprios representantes de Daniel Vorcaro. Quatro departamentos internos (Desup, Derad, Deorf e Desuc) deram aval às operações de aumento de capital da instituição.
Apenas quatro meses depois, em novembro de 2025 – já sob nova gestão – o BC interveio e liquidou o Banco Master. O rombo, até então ignorado, explodiu: fraudes em carteiras de crédito somam R$ 12,2 bilhões, e o prejuízo ao Fundo Garantidor de Crédito (FGC) pode chegar a R$ 53 bilhões.
Por que Campos Neto não liquidou o Master antes?
A demora na liquidação levanta duas hipóteses investigadas:
1. Comprometimento da fiscalização – Com os dois diretores atuando como “consultores” de Vorcaro, qualquer ação mais enérgica do BC provavelmente era comunicada ao banqueiro antes de ser implementada.
2. Alegação de que a presidência “não fiscaliza” – Campos Neto, por meio de sua defesa, afirmou que “a presidência do Banco Central não trata das operações específicas de bancos do segmento S3 e não pode ser responsabilizada por falhas de terceiros”. A justificativa, porém, é contestada. O deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) argumenta que o BC recebeu alertas do FGC e da Febraban sobre a escalada de CDBs arriscados do Master, e que Campos Neto “sabia de tudo e não fez nada”.
O rombo: a dimensão do roubo
As investigações apontam que o esquema criminoso do Banco Master envolveu:
· Fabricação de contratos de crédito consignado – carteiras inteiras foram criadas com documentos falsos e vendidas ao BRB (Banco de Brasília), que transferiu R$ 12,2 bilhões ao Master em poucos meses.
· Emissão de títulos garantidos pelo FGC – o Master pagava taxas muito acima do mercado para captar recursos, repassando o risco ao fundo.
· Lavagem de dinheiro – parte dos recursos foi usada para financiar o estilo de vida bilionário de Vorcaro: mansão de US$ 37 milhões em Orlando, propriedade de R$ 280 milhões em Trancoso, jato de R$ 80 milhões e festa de debutante da filha de R$ 15 milhões.
· Contabilidade paralela – registros internos escondiam a real situação financeira do banco.
Campos Neto está sendo investigado?
Sim, mas o estágio ainda é preliminar. Fontes da Polícia Federal informaram que até o momento não há evidências de que Campos Neto tivesse conhecimento direto da corrupção de seus subordinados. No entanto, a PF investiga a participação dele nos processos que autorizaram a venda e a reestruturação de ativos ligados ao Banco Master durante sua gestão.
Além disso:
· O deputado Lindbergh Farias protocolou uma notícia-crime na Procuradoria-Geral da República (PGR) pedindo a investigação criminal de Campos Neto por “omissão dolosa na fiscalização bancária”.
· A CPMI do INSS aprovou convite para que Campos Neto preste depoimento sobre o caso. Embora o convite não seja obrigatório, a comissão pretende pressioná-lo sobre o que sabia e quando soube.
Conclusão:
Roberto Campos Neto ainda não foi formalmente acusado. A investigação, por enquanto, concentra-se nos ex-diretores que ele nomeou ou manteve nos cargos – e que agora são apontados como peças-chave do esquema de proteção ao Banco Master. No entanto, o cerco se fecha.
A pergunta que não quer calar não é retórica. Ela reflete a pressão crescente para que a PGR e a Polícia Federal examinem se o ex-presidente do Banco Central agiu com a devida diligência, especialmente após o alerta da PF em julho de 2024. Se ficar comprovado que ele teve conhecimento das irregularidades e nada fez, ou que suas escolhas na diretoria viabilizaram o maior escândalo bancário da história do Brasil, a cadeira no banco dos réus será o destino inevitável.
Como resumiu a ministra Gleisi Hoffmann: “Por que será que Campos Neto não agiu contra as fraudes de Vorcaro enquanto era presidente do BC?” A resposta a essa pergunta será o passaporte – ou para a absolvição, ou para o banco dos réus.
Fontes: CNN Brasil, Revista Fórum, Hora do Povo, UOL, Estadão, SBT News, Jovem Pan, Diário do Centro do Mundo, Times Brasil.
*Plínio Cesar A Coêlho é economista, professor-adjunto da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), mestre em administração pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e doutorando em ciências empresariais e sociais na Universidad de Ciencias Empresariales y Sociales (Uces), Buenos Aires, Argentina.









