EDITORIAL: Nas eleições 2026, debate-se nomes e parcerias, mas ninguém foca nos projetos prioritários

A imprensa tem papel central nesse reposicionamento do debate. Questionar nomes é legítimo, mas não pode ser o eixo exclusivo da cobertura

Carlos Araújo*

PORTO VELHO – À medida que o calendário eleitoral de 2026 avança, cresce o ruído em torno de possíveis candidaturas, alianças e cenários políticos. Pesquisas de intenção de voto, listas de “prováveis nomes” e análises sobre quem ganha ou perde espaço ocupam manchetes, programas de rádio e debates nas redes sociais. O problema não está em discutir política — isso é parte da democracia —, mas em restringir o debate quase exclusivamente a nomes, enquanto projetos seguem em segundo plano.

A escolha do candidato deve levar em conta se ele está apto a executar os projetos prioritários para a gente de Rondônia.

Para a população, o que muda a vida não é quem lidera as pesquisas hoje, mas o que será entregue amanhã. Quantos hospitais serão construídos? Como serão enfrentadas as ondas crescente de criminalidade? Com quais recursos? Quando começam as obras e quando serão concluídas? E as escolas, estradas, saneamento, moradia, meio ambiente e serviços públicos. Sem essas respostas, o debate eleitoral perde densidade e se afasta do interesse público.

Saúde: onde estão os projetos, os prazos e os números?

A área da saúde é um exemplo claro de como o debate poderia ser mais objetivo. Municípios do interior convivem com filas, transferências constantes e sobrecarga das unidades regionais. Ainda assim, quando o tema aparece na arena política, geralmente vem acompanhado de promessas genéricas, sem cronograma nem orçamento detalhado.

Há anúncios importantes que merecem acompanhamento rigoroso. Em Ji-Paraná, por exemplo, foi divulgado convênio para a construção de uma nova maternidade, com recursos federais expressivos e área já definida. A pergunta que se impõe é simples e necessária: quando a obra começa e qual a previsão de entrega? Quem será responsável pela gestão e pelo custeio após a inauguração?

Em Cacoal, o Hospital de Urgência e Emergência Regional passou por reformas e ampliações, fundamentais para atender toda a macrorregião. Mas a cobertura jornalística não pode parar no anúncio da obra. Quantos novos leitos foram efetivamente entregues? Houve ampliação de UTIs? O quadro de profissionais acompanha a nova estrutura?

Já em Jaru, o início das obras de um Centro de Hemodiálise representa um avanço concreto para pacientes que antes precisavam se deslocar longas distâncias. Aqui, novamente, cabe à imprensa — e aos eleitores — cobrar etapas, prazos e capacidade de atendimento quando o serviço estiver em funcionamento.

Em municípios menores, como Cujubim, reformas e ampliações hospitalares aparecem em editais e comunicados oficiais, mas raramente entram no centro do debate político. São justamente essas obras, muitas vezes de menor visibilidade, que fazem diferença direta no cotidiano da população local.

Educação, infraestrutura e urbanismo: promessas precisam de mapa e calendário

O mesmo raciocínio vale para outras áreas essenciais. Na educação, falar em “valorizar o ensino” é insuficiente. Onde serão construídas novas escolas e creches? Quais bairros ou distritos serão atendidos? Há recursos garantidos para laboratórios, tecnologia e formação de professores?

Na infraestrutura urbana, discursos sobre desenvolvimento precisam vir acompanhados de mapas de obras: pavimentação, drenagem, saneamento básico, habitação. Quais projetos estão licenciados? Quais dependem de financiamento externo? Quais têm previsão real de execução no próximo mandato?

No meio ambiente, tema sensível em Rondônia, é indispensável sair do campo ideológico e entrar no técnico: metas de recuperação de áreas degradadas, fiscalização, regularização fundiária e políticas de desenvolvimento sustentável, com indicadores claros de acompanhamento.

O papel da imprensa: menos especulação, mais fiscalização

A imprensa tem papel central nesse reposicionamento do debate. Questionar nomes é legítimo, mas não pode ser o eixo exclusivo da cobertura. Cabe aos jornalistas exigir documentos, contratos, convênios, termos de referência e cronogramas. Uma entrevista eleitoral precisa ir além da pergunta “o senhor é candidato?” e avançar para “qual projeto o senhor defende, quanto custa e quando será entregue?”.

Boas estradas para acesso e escoamento da produção também contam como aliadas

Ao fazer isso, o jornalismo cumpre sua função pública: informar, contextualizar e permitir que o eleitor compare propostas com base em fatos, não apenas em discursos. Esse movimento também qualifica a política, pois força pré-candidatos e partidos a apresentarem planos consistentes, e não apenas slogans.

Eleições são sobre futuro, não só sobre nomes

As eleições de 2026 serão decididas nas urnas, mas o debate que as antecede define a qualidade das escolhas. Discutir projetos não elimina a política; ao contrário, a eleva. Quando sociedade e imprensa passam a cobrar obras, prazos e resultados, o foco se desloca do marketing para a entrega concreta.

Nomes passam. Mandatos terminam. Mas hospitais, escolas, estradas e serviços públicos permanecem — ou fazem falta. É sobre isso que o debate eleitoral precisa tratar.

*É editor-executivo de www.expressaorondonia.com.br


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