
PORTO VELHO – Mais do que escolher um novo governador, o eleitorado rondoniense aproveitou as urnas para mandar uma mensagem a classe política; é hora de renovação geral. E poucos políticos de carreira sem mandato conseguiu se eleger. Esse é um fenômeno que merece ser observado com atenção: a chegada de uma nova geração ao centro da disputa pelo comando do Estado, substituindo àquela geração de jovens que chegaram por aqui um pouco antes e na transição de território federal para estado.
Dos seis candidatos que disputaram o Governo de Rondônia, quatro tinham entre 35 e 40 anos. O mais jovem era Pedro Abib, de 35 anos; Samuel Costa tinha 36; Expedito Netto, 37; e Adailton Fúria, 40, e Marcos Rogério, 48. Todos eles nasceram em Rondônia e, no último debate, por exemplo, quando Hildon Chaves não compareceu, só aparecia filhos dos migrantes do ‘Novo Eldorado’ na telinha.
Na política, nada é estático e nenhuma lição é absoluta, mas, doravante, os políticos das antigas terão cada vez mais dificuldades para ganhar a eleição em Rondônia.
E, aos 48 anos, Marcos Rogério, nascido em Ji-Paraná, teve uma vitória histórica, com mais de meio milhão de votos.

E há outro componente simbólico: quatro dos seis candidatos nasceram em Rondônia — Marcos Rogério, em Ji-Paraná; Adailton Fúria, em Cacoal; e Expedito Netto e Samuel Costa, em Porto Velho — enquanto Pedro Abib nasceu em Pelotas (RS) e Hildon Chaves em Recife (PE).
O resultado das urnas, porém, foi contundente: Marcos Rogério foi eleito no primeiro turno, com 537.370 votos, ou 56,86% dos votos válidos. Adailton Fúria ficou em segundo, com 189.547 votos; Hildon Chaves teve 134.355; Expedito Netto, 72.851; Pedro Abib, 6.591; e Samuel Costa, 4.344 votos.
Os seis nomes que disputaram o futuro de Rondônia
Marcos Rogério (PL), 48 anos,
Ji-Paraná/RO
537.370
Saúde, educação e inovação, desenvolvimento econômico, segurança, eficiência administrativa, infraestrutura e fortalecimento do setor produtivo.
Adailton Fúria (PSD), 40 anos
Cacoal/RO
189.547
Saúde e educação, segurança, agricultura familiar, agroindústria, bioeconomia, estradas, saneamento, regularização fundiária, empreendedorismo e proteção ambiental.
Hildon Chaves (União), 58 anos
Recife/PE
134.355
Responsabilidade fiscal, saúde regionalizada, educação, segurança, agropecuária, infraestrutura, habitação, turismo, meio ambiente e modernização administrativa.
Expedito Netto (PT), 37 anos
Porto Velho/RO
72.851
Saúde regionalizada, trabalho e renda, responsabilidade fiscal, obras paradas, gestão por resultados e políticas sociais.
Pedro Abib (MDB), 35 anos
Pelotas/RS
6.591
Reorientação da matriz econômica, planejamento, ciência, tecnologia e inovação, além de saúde, segurança, educação e desenvolvimento social.
Samuel Costa (PSB), 36 anos
Porto Velho/RO
4.344
Saúde mental e pública, Universidade Estadual, escolas em tempo integral, segurança, agricultura familiar, inclusão social, cultura, esporte e participação cidadã.
Os números eleitorais são da totalização de 100% das seções em Rondônia.
Uma geração que nasceu junto com Rondônia
É impossível olhar para esses números sem considerar a própria história do Estado.
Rondônia foi formada por grandes ondas migratórias. Famílias chegaram principalmente a partir das décadas de 1970, 1980 e 1990, vindas de diferentes regiões do Brasil. Foram agricultores, comerciantes, profissionais liberais, trabalhadores e empreendedores que ajudaram a transformar o antigo território em um dos estados mais dinâmicos da Amazônia.

Quatro décadas depois, começa a aparecer na política uma geração que nasceu aqui ou chegou muito jovem e construiu sua identidade política dentro de Rondônia.
É uma diferença importante.
Durante muitos anos, a política rondoniense foi fortemente marcada por homens e mulheres que chegaram de outros estados e fizeram carreira política depois de se estabelecerem aqui. A eleição de 2026 mostra que os filhos daquela primeira grande leva de migrantes começam ganhar protagonismo e a ocupar os espaços políticos de Poder.
Marcos Rogério é um exemplo emblemático. Nascido em Ji-Paraná em 1978, começou sua trajetória como vereador, foi deputado federal e senador antes de conquistar o Governo do Estado.
Adailton Fúria nasceu em Cacoal em 1986 e construiu sua carreira política no próprio Estado, passando pela Câmara Municipal, Assembleia Legislativa e Prefeitura de Cacoal.
Expedito Netto, nascido em Porto Velho em 1988, chegou à disputa pelo governo aos 37 anos, depois de duas eleições vitoriosas para deputado federal e de ocupar a Secretaria Nacional da Pesca.
Samuel Costa, também nascido em Porto Velho, tem 36 anos e disputa pela segunda vez o Governo do Estado.
E não foi apenas uma mudança de idade
A mudança geracional também pode ser percebida nos programas de governo.
Os seis candidatos apresentaram propostas diferentes, mas existe uma convergência: saúde, educação, segurança, infraestrutura e desenvolvimento econômico continuam sendo os grandes problemas que o próximo governo terá de enfrentar.
Marcos Rogério apresentou o projeto “Rondônia do Futuro — Crescer, Proteger e Prosperar”, com forte ênfase em saúde, educação e inovação, desenvolvimento econômico, gestão pública, segurança e infraestrutura.
Adailton Fúria apresentou um programa estruturado em grandes blocos como “Proteger a Vida”, “Dar força a quem trabalha e produz” e “Abrir caminhos para viver bem, produzir e preservar”, com atenção especial à agricultura familiar, agroindústria, bioeconomia, saúde, educação e infraestrutura.
Hildon Chaves levou para a disputa a experiência de seus dois mandatos à frente da Prefeitura de Porto Velho e apresentou um programa com 14 eixos, incluindo saúde, educação, segurança, agropecuária, infraestrutura, assistência social, cultura, turismo, meio ambiente e modernização administrativa.
Expedito Netto apresentou um plano com 90 compromissos e 14 eixos, defendendo um modelo de governo baseado em metas, transparência, fonte de recursos definida e execução de obras paradas.
Pedro Abib colocou no centro de seu programa a transição da matriz econômica de Rondônia, defendendo planejamento, conhecimento técnico, ciência, tecnologia e inovação como instrumentos para fazer o Estado crescer.
Samuel Costa apresentou talvez a proposta mais explicitamente associada à renovação institucional: criação de uma Universidade Estadual de Rondônia, implantação de 100 escolas em tempo integral, novo Hospital João Paulo II, valorização dos servidores, agricultura familiar, inclusão social e participação popular.
Há, entretanto, um paradoxo interessante.
A eleição que revelou uma nova geração terminou elegendo um político que já possui quase duas décadas de experiência eleitoral.
Marcos Rogério não é um outsider. É justamente o contrário. Sua vitória representa a consolidação de uma trajetória política iniciada em Ji-Paraná e que passou pela Câmara dos Deputados e pelo Senado.

Mas sua idade — 48 anos — o coloca em outra faixa geracional em comparação com boa parte dos nomes que disputaram a eleição com ele.
Isso talvez seja o mais importante.
A mudança não aconteceu simplesmente porque um jovem venceu.
A mudança aconteceu porque a própria composição da disputa mudou.
Um candidato de 35 anos, outro de 36, outro de 37 e outro de 40 chegaram ao centro do debate estadual. Isso seria muito menos provável algumas décadas atrás.
Rondônia começa a votar em quem nasceu aqui?
Essa talvez seja a pergunta que fica para as próximas eleições. Em 2026, Rondônia não elegeu apenas um governador. O Estado assistiu ao amadurecimento político de uma geração que nasceu ou cresceu dentro da própria transformação de Rondônia.
E isso pode ter consequências para as próximas eleições.
Porque uma coisa é um político representar Rondônia porque escolheu o Estado para viver. Outra, diferente, é ter nascido, estudado, crescido e formado sua visão de mundo dentro da realidade rondoniense.
Essa diferença pode parecer apenas simbólica.
Mas não é.
Ela significa que, quarenta anos depois das grandes ondas migratórias que ajudaram a construir Rondônia, os filhos daquela geração começam a reivindicar também o direito de conduzir politicamente o Estado.
As urnas de 2026 podem, portanto, ser lembradas menos como a eleição de uma pessoa e mais como o início de uma transição: a política de Rondônia começa a passar dos pioneiros para seus filhos.
E essa talvez seja uma das mudanças mais profundas — e menos percebidas — desta eleição.
Rondônia está deixando de ser apenas a terra dos que chegaram. Começa a ser, também, a terra dos que nasceram aqui.
www.expressaorondonia.com.br, por Carlos Araújo








