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segunda-feira 25 outubro 2021

No Dia da Padroeira, Geisel aborta o golpe de Frota. Uma história brasileira, 44 anos atrás.

Eu estava em Brasília quando o ministro do Exército quis dar rasteira no general-presidente, mas se deu mal. A estratégia do "Alemão" era maior do que a dele.

MONTEZUMA CRUZ

BRASÍLIA – Sucessivas reuniões à noite em apartamentos senatoriais analisavam a tentativa de golpe. Este repórter participou de uma, na quadra 309 Sul, onde morava o senador Thales Ramalho (MDB-PE). Ali eu chegava, acompanhado do presidente do Diretório Estadual do MDB em Mato Grosso, José Aníbal de Souza Bouret, e do deputado estadual Cecílio de Jesus Gaeta (MDB).

Lá estavam, com Thales, os senadores Nelson Carneiro (MDB-RJ) e Ulisses Guimarães (MDB-SP). Ouviam o Jornal Nacional e conversavam admirados da maneira como o presidente Ernesto Geisel conseguira desmobilizar seu opositor, Sylvio Frota, exonerando-o do Ministério do Exército e com isso evitando a maior crise institucional que o regime militar enfrentaria a partir daquele inesquecível 12 de outubro de 1977, Dia da Padroeira do Brasil e Dia da Criança.

Designado pelo extinto jornal cuiabano Correio da Imprensa, de J. Maia de Andrade e Ronaldo Arruda Castro, eu havia viajado para acompanhar a assinatura da divisão do Estado de Mato Grosso, um dia antes (11), e me deparei com o cenário marcado pelo silêncio e por uma leitura muito interessante: mesmo acusado de “traidor dos ideais revolucionários”, Geisel não censurou os jornais do dia seguinte.

Jornal da Tarde, de São Paulo, noticia a manobra frustrada do ex-ministro

Chefe da linha dura, Frota conspirava intramuros e estimulava parlamentares a defender sua candidatura à sucessão presidencial. Imagine.

Ouvi que o general-presidente mandara desligar todos os telefones exclusivos e linhas de telex da sede do Ministério do Exército, sem as quais, o general Sylvio Frota estaria isoladíssimo. Enquanto isso, o general Fernando Belfort Bethlem voava de Porto Alegre para a Base Aérea de Brasília, onde lhe aguardavam militares designados por Geisel. Seguiram diretamente para o Palácio Planalto, onde ele assumiria o ministério.

Lá pelas 21h30, o presidente nacional do MDB, Ulisses Guimarães despediu-se de todos naquele apê da 309 Sul, apertando nossas mãos. “Tenho que me retirar com o doutor Nelson Carneiro, sou hóspede dele”, dizia-nos. Na cadeira de rodas, Thales Ramalho sorria, agradecia a visita e nos dava boa noite.

Em 2017, nos 40 anos desse acontecimento, o jornalista gaúcho Carlos Alberto Reis Sampaio publicou no jornal O Expresso este texto:

Que não se estranhe as ameaças de golpe dentro das Forças Armadas pelo fechamento do regime. Ernesto Geisel, o duríssimo Geisel, até ele, foi vítima de uma tentativa de golpe dos generais da chamada Linha Dura, o controverso general Sylvio Frota. 

Os veteranos comandantes de tropa que hoje circundam o Estado Maior do Exército estão botando a cabeça de fora, estão rompendo as sagradas regras da hierarquia, prontos para prender corruptos nos três poderes da República e estabelecer novamente um regime de exceção.

Em outubro de 1977, o dia amanheceu ensolarado em Brasília. Era feriado religioso,  na Capital Federal. As redações de jornal funcionariam à meia carga, em regime de plantão.

Também, naqueles idos, com a ditadura militar em pleno vapor, pouco adiantaria saber que Câmara e Senado não se reuniriam, que os tribunais superiores, aproveitando o recesso, continuavam impedidos de julgar atos do Poder Executivo, e que ainda vivíamos o impacto do pacote de abril daquele ano, um truculento conjunto de medidas institucionais responsáveis por criar os senadores biônicos, o voto vinculado, a proporcionalidade do número de deputados favorável aos estados do Norte e Nordeste e outras abomináveis regras destinadas a fazer com que a Arena, o partido do governo, não perdesse para o partido da oposição, o MDB, nas eleições do ano seguinte, como havia perdido em 1974.

Rumores, no entanto, começavam a circular desde cedo. Em vez de gozar a folga, todos os funcionários civis e militares do Palácio do Planalto estavam convocados para o trabalho.

Na sede do Executivo, foram substituídos os contingentes e sentinelas do Batalhão de Guardas pelos soldados, aliás reforçados, do Regimento de Cavalaria.

Por volta de oito da manhã, o presidente Ernesto Geisel já se encontrava no Palácio, junto com seus principais auxiliares, o chefe do Gabinete Civil, general Golbery do Couto e Silva, o chefe do Gabinete Militar, general Hugo Abreu, o chefe do SNI, general João Baptista Figueiredo, o secretário particular, major Heitor de Aquino, e até o secretário de imprensa, economista Humberto Barreto.

Sylvio Frota assinou nota criticando abertura de Geisel à China

Um bissexto repórter credenciado no Planalto, Evandro Paranaguá, de O Estado de S. Paulo, por acaso passava de carro pela Praça dos Três Poderes quando estranhou a entrada, no Palácio do Planalto, pela garagem, de quatro carros negros em comitiva, três da segurança e o do meio, com o ministro do Exército, general Sylvio Frota, fardado e, como sempre, de cenho fechado no banco de trás.

Frota não despachava com o presidente Geisel há semanas, os rumores eram de estremecimento entre eles, já que o ministro do Exército, se não estimulava, ao menos aceitava seguidos pronunciamentos de parlamentares em favor de sua candidatura à presidência da República, em nome da linha dura, grupo militar infenso às esperanças de que um dia Geisel desenvolveria a abertura política, atenuando as tenazes da ditadura.

Frota via comunistas na imprensa, no Congresso, no Judiciário e até no governo.

Havia sido mordido pela mosca azul e estava pronto a atender seguidos e anunciados convites para pronunciar conferências por todo o país, em nome da pureza revolucionária!

Apenas os dois generais sentaram-se à mesa de reuniões do gabinete presidencial. As versões depois divulgadas deveram-se obviamente a um deles, no caso, o presidente Geisel. O tonitruante chefe do governo foi logo ao assunto:

“ – Frota, nós não nos entendemos mesmo! Quero que você se demita!

– Não tenho a menor intenção de demitir-me! Sou o chefe do Exército!

– Então você está demitido, porque o cargo me pertence!

– Você não tem força para isso e eu não me demito!”

Seguiram-se adjetivos pouco vernaculares referentes às genitoras de ambos e, depois, a saída do ministro do Exército, batendo a porta.

O general Sylvio Frota seguiu para o seu gabinete no Setor Militar Urbano, o Forte Apache, como era chamado, verificando-se um episódio até hoje não contado, por falta de provas: quando a comitiva entrava no túnel privativo do ministro, no Quartel-General, rumo ao elevador que levava ao seu gabinete, ouviu-se um estampido.

O carro que vinha atrás do carro do ministro, com os seguranças, é abalado por forte explosão. As portas se desprendem e saem feridos dois sargentos, ainda que sem gravidade. Mais tarde, será verificado que uma granada de tempo fora colocada no piso do túnel, certamente destinada a estourar quando a viatura de Frota estivesse passando.

Os responsáveis? Certamente que não os oficiais do gabinete do ministro, mas, ao contrário, gente da presidência da República lá infiltrada.

Em sua sala, surpreendido pela iniciativa de Geisel ao demiti-lo, coisa que não esperava, Frota começa a reunir suas forças! Não aceitaria a demissão e manda telefonar para os comandantes dos quatro Exércitos (Porto Alegre, São Paulo, Rio de Janeiro e Recife), além do comandante militar da Amazônia.

Participa-lhes da eclosão de uma crise, fala da humilhação a que o presidente da República estava submetendo o Exército e pede que se dirijam imediatamente a Brasília, indo do aeroporto diretamente para o Quartel-General.

Pobre estrategista, o ministro, porque desde a véspera os comandantes militares haviam sido avisados por coronéis do Gabinete Militar da presidência da República que algo de grave aconteceria em Brasília, mantendo-se preparados para vir à capital federal, dirigindo-se imediatamente ao Palácio do Planalto.

O comandante do III Exército, general Belford Bethlem, encontrava-se de férias, no Rio, e recebera mensagem suplementar: deveria trazer a farda, pois talvez lhe coubesse missão específica. No caso, assumir o ministério do Exército.

Ele também pertencia à linha dura, dias atrás havia expedido nota verberando o comunismo. Foi a primeira surpresa de muitas que o general Sylvio Frota receberia naquele dia!

A difícil abertura arquitetada por Golbery

Geisel e seu ministro da Casa Civil, o general Golbery do Couto e Silva, principal articulador do projeto de distensão política, eram vistos como traidores dos ideais de 1964 e criticados duramente em panfletos anônimos que circulavam nos quartéis. Os papéis atacavam a “vaidade cega” de Geisel e a “ganância insaciável” de Golbery, em geral retratado pendurado numa forca em desenhos ameaçadores.

O representante mais destacado desse grupo era o general Sylvio Frota, o ministro do Exército. Admirado pela linha dura, ele virou motivo de preocupação para Geisel quando começou a se movimentar nos quartéis e até no Congresso como se fosse candidato a presidente. Geisel tinha outros planos e não admitia a ideia de que a escolha de seu sucessor pudesse ser imposta por subordinados.

O enfrentamento de Geisel com a linha dura teve três momentos decisivos. O primeiro foi a morte do jornalista Vladimir Herzog no quartel-general do 2º Exército, em São Paulo, em outubro de 1975. Seu corpo foi exibido pendurado pelo pescoço por um cinto amarrado à janela de uma cela.

A versão oficial era que ele se suicidara na prisão, mas as marcas de tortura eram visíveis no seu corpo. A comoção provocada pela morte levou milhares de pessoas a participar de uma celebração religiosa em memória do jornalista na Catedral da Sé.

Geisel já havia se irritado com a tortura e assassinatos do jornalista Vladimir Herzog e do operário Manoel Filho. Aí, mudou o Comando do Exército em São Paulo.

Geisel irritou-se com o episódio, mas só agiu três meses depois, quando o operário Manoel Fiel Filho apareceu morto no mesmo quartel em circunstâncias semelhantes. A versão oficial dizia que ele havia se suicidado com um par de meias. Geisel achou que era uma provocação. Chamou Frota a seu gabinete e mandou que demitisse o comandante do 2º Exército, general Ednardo D’Ávila Mello.

Frota cumpriu a ordem, mas continuou se movendo como se fosse capaz de impor sua candidatura com o apoio dos oficiais radicais e contra a vontade de Geisel. Só descobriu que vivia uma ilusão no dia 12 de outubro de 1977, um feriado, quando Geisel o demitiu após cinco minutos de conversa. Nenhum dos generais que diziam apoiar as pretensões de Frota reagiu. Todos perceberam que era Geisel quem mandava.

Frota despediu-se divulgando um manifesto de oito páginas, em que atacou a política externa do governo por buscar aproximação com a China, criticou a interferência do Estado na condução da economia e acusou o governo de “complacência criminosa” com a “infiltração comunista” no setor público e na sociedade. Como afirmou mais tarde em suas memórias, que só foram publicadas após sua morte, Frota acreditava que Geisel e Golbery eram “socialistas”.

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