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segunda-feira 14 junho 2021

Deus salve o “Rei” – Por Humberto Oliveira

Os 80 anos de Roberto Carlos na visão de um crítico - não fã, mas também não é anti

Humberto Oliveira*

PORTO VELHO – Apesar dos pesares, dos altos e baixos, o compositor e cantor Roberto Carlos, parceiro eterno do “Tremendão”, Erasmo Carlos, conquistou seu lugar na história da música popular brasileira. É certo, que sua musicografia, há quase três décadas dá sinais de cansaço e para muitos críticos, não para os fãs, óbvio, o chamado “Rei” há muito já esvaziou sua verve e inspiração. Este ocaso não é privilégio apenas de Roberto Carlos, porque podemos incluir na lista nomes como Chico Buarque, cujo o último bom disco foi lançado em 1994 – aquele LP onde ele aparece de braços abertos e camisa azul num fundo vermelho.

De Roberto Carlos, que nesta segunda-feira, 19 de abril de 2021, comemora nada menos que oito décadas de vida e mais de sessenta anos de carreira, não podemos esquecer que em parceria com Erasmo, é o autor de composições inesquecíveis como “Detalhes”, “Os seus botões”, “Rotina”, “Proposta”, “Amada amante”, “Fera ferida” e tantas outras lindas canções que até hoje embalam os corações apaixonados.

Infelizmente, mesmo com tanto sucesso artístico, nem tudo são flores na vida e na carreira de Roberto Carlos Braga, o “Zunga”, que sempre sonhou em ser cantor e um dia saiu de sua terra natal, Cachoeiro de Itapemirim, e foi para “o Rio de Janeiro para voltar e não voltei ” como bem afirma a letra de Meu pequeno Cachoeiro, gravada pelo cantor nos anos 1970, período que marcou sua trajetória de intérprete e compositor de canções românticas, depois da fase Jovem Guarda, deixada para trás quando ele conquistou o primeiro lugar no Festival da Canção de San Remo, na Itália. Roberto Carlos cantou na Rádio Nacional e até tentou participar da Bossa Nova, no entanto, como imitava ninguém menos que João Gilberto, e para dar certo, o jeito foi mudar de estilo seguindo os conselhos de Carlos Imperial. Tanto que RC logo se transformaria no “Rei da Juventude” cantando futilidades como Aquele beijo que lhe dei e “Splish, Splash”. O sucesso bateu à sua porta e passou a ganhar muito dinheiro.

Na onda dos 80 anos de Roberto Carlos, o mercado editorial brasileiro vai presentear os leitores com três livros focados na sua história e carreira. O primeiro saiu pela editora Máquina de Livros. “Querem acabar comigo – da Jovem Guarda ao trono, a trajetória de Roberto Carlos na visão da crítica nacional”, do jovem escritor e pesquisador Tito Guedes. Assim como os demais livros em homenagem ao cantor, o livro de Guedes faz referência ao título de canção gravada pelo cantor.

Desde a Jovem Guarda, Roberto Carlos é um sucesso de público e fenômeno de vendas. A crítica musical, porém, demorou a lhe estender o tapete vermelho. A maior parte do tempo ele foi visto como um cantor alienado, brega, carola e acomodado. Para contar a trajetória do mais bem-sucedido nome da música brasileira de todos os tempos, sob o ponto de vista da imprensa especializada, o pesquisador Tito Guedes garimpou centenas de resenhas publicadas desde os anos 60 até hoje. O resultado é Querem acabar comigo, um retrato da obra do Rei a partir de uma perspectiva inédita.

O segundo livro, intitulado Roberto Carlos, por isso essa voz tamanha, é do jornalista e escritor Jotabê Medeiros, autor de biografias de Belchior e Raul Seixas. Ninguém na música brasileira é mais popular do que Roberto Carlos. No entanto, são poucas as fontes acessíveis – não apenas a seus inúmeros fãs, mas também a qualquer interessado na cultura brasileira – capazes de traçar, sem arroubos de tiete ou tintas sensacionalistas, o percurso deste artista singular. Publicada no momento em que o artista completa 80 anos, esta biografia, que será lançada amanhã, dia do aniversário do biografado, consegue justamente esse feito.

A complexidade de um cantor das multidões que cativou artistas da vertente “intelectual” da MPB surge aqui com toda nitidez, assim como o lado menos edificante do artista. Tanto este como o outro estão a caminho. O título é uma referência à “Força Estranha”, uma das três composições de Caetano Veloso, que RC gravou (as outras são “Como 2 e 2” e “Muito romântico”). Curiosamente, ao gravar “Força Estranha”, Roberto acrescentou uma palavra à letra no trecho “por isso essa força estranha no ar”. Caetano deve ter gostado da pequena alteração, pois não se tem notícia de que tenha reclamado.

Talvez o mais esperado das três obras, “Roberto Carlos”, outra vez – o título parece provocação, mas é mais uma homenagem do pesquisador, escritor e historiador Paulo César de Araújo, o autor da famosa biografia Roberto Carlos em detalhes, que desagradou ao “Rei”, tanto que ele entrou com processo contra Araújo e a editora Planeta, aliás, mesmo tendo mais de dez mil exemplares recolhidos, o teimoso biógrafo não se fez de coitado e contou tudo no excelente “O réu e o rei”, pela Companhia das Letras.

Com previsão de lançamento até maio, “Roberto Carlos, outra vez” foi dividido em dois volumes de 500 páginas cada um. A editora Record pretende lançar o volume 2 em dezembro deste ano. Será que RC vai novamente acionar seu exército de advogados para impedir o lançamento? Acho que não. A outra vez repercutiu mal inclusive, no meio dos fãs mais ardorosos. Mas nunca se sabe.

“Roberto Carlos, outra vez”, nos remete à linda composição de Isolda, Outra vez, na verdade, não é uma canção romântica, mas uma homenagem da autora ao irmão Milton Carlos, também compositor e seu parceiro, que havia morrido.

O livro “Roberto Carlos em detalhes” pode ser encontrado na Estante Virtual por preços que variam entre 250 e 1200 reais. Se não acreditam, pesquisem. O meu exemplar, comprei logo que saiu e custou apenas 39,90. Não troco, não vendo, não empresto e não dou.

Roberto Carlos disse que “não leu e não gostou”. Pois quem leu, sem dúvida, gostou e aprovou a obra, que nasceu de 15 anos de pesquisa. Ironicamente, apenas RC foi o único a se recusar a dar entrevistas para Paulo César de Araújo. Assim mesmo, ele não desanimou e escreveu a melhor biografia que Roberto poderia querer e não quis. Com “Roberto Carlos, outra vez”, o pesquisador afirmou que o ponto de vista é outro e conta a história de Roberto a partir de suas composições, como o “Divã”, que relata o acidente que sofreu quando criança; “Meu grito”, gravada por Agnaldo Timóteo, e compôs para desabafar sobre seu namoro às escondidas com Nice, que se tornaria sua primeira mulher; “Minha tia”, “Lady Laura” e tantas outros.

Foi através de suas canções que o compositor exorcizou seus demônios ou suas histórias de amor em versos românticos, derramados e cheios de erotismo. Ao completar 80 anos de vida, Roberto Carlos assim como o público – fãs e leitores, estão sendo contemplados com três obras que podem até não ser definitivas, mas certamente entrarão para a história da música brasileira. Deus salve o “Rei”.

*É jornalista de formação, escritor, cinéfilo e poeta diletante

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